Esse texto não se aplica a todos os fumantes; há uma vasta gama de idades, razões e formas
pelas quais começámos fumando. Não posso saber qual a experiência de cada pessoa, apenas me baseio
em minha própria experiência, mas acredito que estou falando para a grande maioria dos fumantes.
Você saberá se isso se aplica a você.
O dicionário define "culpa" como um sentimento de auto-repulsa por acreditar que fez
algo errado.
A culpa é uma experiência psicológica e emocional própria de todas as coisas que
respiram e vivem, tal como a alegria, o medo, a confusão, o ódio, a apatia, a raiva e o espetro de
sentimentos que vai do branco mais brilhante ao negro mais escuro. Todos têm seu lugar em nossas
vidas e cada um expressa, interior ou exteriormente, o que vai dentro de nosso espírito.
Todos nós, independentemente de fatos, fantasias ou razões, fazemos coisas na vida de
acordo com o grau de culpa que sentimos em nosso íntimo.
Depois ao amor, a culpa é a experiência emocional mais forte e certamente a mais
volátil. Cada um de nós traz consigo, em todos os minutos de sua existência, acordado ou dormindo,
nossa "boneca" psicológica pessoal, cheia de todas essas coisas que preferimos manter à distância,
num passado sombrio, sobretudo escondidas daqueles que sabemos poderiam nos recriminar por isso.
Se houver uma forma de aliviar o fardo da culpa, nos libertarmos de parte desse peso,
ganharemos uma força adicional; uma vez purgados, notaremos um aumento significativo de energia
positiva, que pode ser agora aplicada em objetivos novos, que anteriormente pareciam inatingíveis,
quando tínhamos o peso da culpa sobre nós.
De minha experiência de mais de 50 anos, sempre tivemos os cigarros como
membros da família; desde minhas memórias mais antigas, enquanto fui crescendo, todos os adultos
que conheci fumavam. Todos os meus educadores (mãe, pai, madrasta, dois padrastos), ambos os avôs e
avós, ambos os irmãos de meu pai, o irmão de minha mãe e outros ainda da minha família, todos
foram presas de doenças fatais relacionadas com o fumo e todos à exceção de dois morreram antes de
completar 60 anos. Os dois que fugiram a essa regra morreram com 72 anos, de câncer. Antes do
câncer aparecer, ambos pareciam de excelente saúde.
Sou o primeiro da linha, de ambos os lados da família, a ter escapado das garras do
hábito de fumar. Sendo minha saúde tão boa como é neste momento e partindo do princípio de que
não terei um acidente, seguramente viverei mais do que qualquer parente que tenha tido nos
últimos 100 anos. Isso me agrada mas põe uma responsabilidade acrescida em mim. Acho que não basta
viver muito mas sobretudo viver bem e contribuir para o bem-estar dos outros.
A culpa verdadeira que sinto e que tenho sentido ao longo de minha vida... o tipo de
culpa que nunca desaparece nem é realmente esquecido... apenas tenho um pequeno número de coisas que
podem se chamar de "culpas". Se essas culpas fossem sabidas publicamente, seriam tão humilhantes que
só de pensar nisso enquanto escrevo essas linhas me faz sentir pouco à-vontade.
Não se trata da intensidade de culpa que os adultos normalmente sentem. Parece reservada
principalmente para crianças e jovens. Quando se é adulto, já descobrimos maneiras de disfarçar a
culpa, a vergonha, a raiva de nós mesmos por não sermos quem pensávamos ou quem queríamos, ou quem
os outros pensavam ou queriam. Conseguimos compensar esses sentimentos, adormecê-los, negá-los.
Muitas vezes culpando outros. Conseguimos enterrá-los no passado e seguir em frente. É isso que
temos que fazer para sobreviver, ou ficaríamos doidos, não acha? Seguimos em frente, fingindo ser
adultos maduros, trabalhando arduamente para desenvolver as características que observamos naqueles
que consideramos ainda mais adultos do que nós. Tomamos as melhores decisões que conseguimos - dadas
as circunstâncias - e tentamos evitar sentir culpa o mais que podemos.
Eventualmente, nos apercebemos de que muitas pessoas parecem nunca conseguir
verdadeiramente crescer, mas todo mundo envelhece. Minha geração está ficando velha. Éramos os
chamados "Baby Boomers", o melhor que havia. Material de primeira classe, gente de segunda,
terceira ou mesmo quarta geração de Americanos! Foi uma altura de expansão demográfica da qual me
orgulho de ter feito parte.
Fomos os que "fizeram mais", fomos "os mais...", somos ainda "os mais..." e assim por
diante, há mais de 50 anos. Isso inclui termos sido a geração que comprou e fumou mais cigarros em
toda a História do Homem. Também fomos os que morreram mais de doenças provocadas pelo tabaco em
toda a História.
A prova daquilo que já sabíamos está à vista. O tabaco pode matar e vai matá-lo
eventualmente, depois de fazê-lo sofrer durante mais ou menos tempo com doenças crônicas até
provocar-lhe outra que seja mortal.
Quando começámos fumando, não precisávamos de estatísticas e pesquisas para nos dizerem
que era mau para a saúde, pois não? Aquele primeiro "trago" nos disse tudo isso logo nessa altura. Da
primeira vez que alguém experimenta inalar um "trago" de um cigarro, puxado "como deve ser",
especialmente se é adolescente e se o cigarro for um Chesterfield sem filtro (como foi meu caso),
seu corpo vai rejeitar o fumo com tanta clareza que você, normalmente um jovem com menos de 16
anos, vai saber instantaneamente, a nível físico e emocional do mais básico que há, que aquilo faz
mal e está provocando danos em seu organismo.
Apesar disto, tomamos a decisão de contrariar nosso corpo e os sinais que ele nos
envia, até começarmos sentindo indiferença perante essas sensações. Uma vez que a mente "pensante"
consiga convencer o corpo de que ou cumpre com a ação desejada ou sentirá dor para sempre, os
sinais se tornam completamente desapercebidos pela mente consciente, ou pelo menos mal interpretados
por ela.
Nas primeiras vezes que praticámos esse acto doloroso, sem sentido e destrutivo, quer
fosse contra o autoritarismo de nossos pais, para imitar outras pessoas ou para fazermos parte do
grupo, todos tivemos que sentir culpa. Essa culpa foi aumentada pelo medo de sermos pegos. Medo
da recriminação. Esse medo aumenta ainda mais a culpa. Faz com que ela passe de passiva a ativa.
Cada cigarro, após aquele primeiro, durante um bom período de tempo, foi um assalto e um insulto à
nossa inteligência. Nosso corpo nos dava sinais para indicar o caminho da sobrevivência e nós
não lhe demos ouvidos.
Lhe chame inteligência interior, poder supremo ou um número de eufemismos que poderia
sugerir. Em nosso íntimo, todos sabemos a diferença entre certo e errado, entre bom e mau.
Forçámos nossos corpos, contra sua vontade e apesar de seus protestos, a absorver
fumo através dos pulmões. Sabíamos que isso não era bom. Sentimos culpa por isso mas em um dado ponto,
essa culpa desapareceu.
Crescemos, fumámos e nos esquecemos disso, a não ser nas alturas em que um programa de
televisão ou outro evento qualquer nos fizesse ter aquele pensamento ocasional mas pouco sincero de
que devíamos parar de fumar. "Quando estivéssemos prontos", não era?
É possível que, para muitos de nós, a culpa de fumar esteja entre os primeiros itens na
lista de culpas que trazemos em nosso íntimo. Uma culpa perpétua, inconsciente e pesada, sem
segredos. Todo mundo sabe e quase ninguém se preocupa. Tantos outros fazem o mesmo...
nós pensamos "não pode ser assim tão mau, pois não?" mas sabemos, bem cá no fundo, que não é assim.
Você tem agora uma excelente oportunidade. Está em posição de fazer a maior "descarga"
de culpa que alguma vez fez, sem traumas associados. Sem clínicas, sem terapias, sem tratamentos de
choque, Prozac, Valium ou Zyban, sem adesivos de nicotina, hipnose, ervas chinesas ou
acupuntura.
Se você for capaz de mergulhar em sua memória, se lembrar da decisão original que tomou
de fumar e conseguir "refazer" essa decisão, ao mesmo tempo que apaga a determinação inicial de
se tornar um fumante, você estará se livrando do peso da culpa que tem carregado todo esse tempo. Não
basta parar de fumar. É necessário ir ao centro da questão e deixar de querer fumar.
Você vai se aperceber de que nunca quis verdadeiramente fumar, que está acordando de um
estado semi-hipnótico em que se colocou e que já não se sente atraído pelo suicídio sob qualquer
forma, especialmente através da inalação de fumo tóxico saído de uma erva e papel ardendo em sua mão.
É uma sensação de elevação que apenas aqueles que conseguiram verdadeiramente se tornar
não-fumantes (em vez de ex-fumantes) conseguem experimentar. Essa sensação anda de mãos dadas com
qualquer tipo de vício. Derrotar esse vício desde sua raiz significa nos libertarmos da culpa que
a ele está associada.
Vale a pena fazer o que for necessário para alcançar esta meta.