Ouço isso tantas vezes, quando o assunto "deixar de fumar" surge... os fumantes dizem isso com tanto
entusiasmo que é difícil não acreditar neles. No entanto, eu sei que eles estão mentindo e nem
sequer sabem isso. Apenas pensam que gostam de fumar. Se seus cérebros conseguissem interpretar o que
seus corpos estão lhes dizendo, teriam uma opinião completamente diferente acerca de fumar.
O que esses fumantes estão dizendo é eu gosto de satisfazer minha necessidade de fumar e me acostumei
ao sabor e ao cheiro.
Eles gostam na realidade que os cigarros estejam por perto e contribuam para sua imagem. Penso que todos
conhecemos fumantes que chamam ao cigarro "o meu melhor amigo". Conheci um que sabia perfeitamente que os
cigarros o estavam matando e mesmo assim dizia isso, encontrando desculpas quase irracionais para continuar
fumando.
O que no início nos atraíu e acabou por nos viciar não foi o ato físico por si. Se fosse esse o caso,
certamente teríamos gostado do primeiro cigarro que fumámos; nos teria dado o "puro prazer" que os comerciais
dizem que teremos. Quantas pessoas que conhece gostaram de seu primeiro cigarro e se tornaram imediatamente
fumantes de um pacote por dia? Eu não conheço nenhum.
A primeira vez não foi agradável para ninguém; provocou náuseas e foi horrível para a grande maioria das
pessoas. Em meu caso, a garganta me doeu, primeiro por causa do fumo e depois por causa da tosse prolongada
que se seguiu. Fiquei muito mal disposto e essa má disposição durou horas. Mesmo lavando meus dentes, parecia
que o cheiro e o sabor não saíam de minha boca.
No entanto, em vez de analisar a experiência e fazer uma jura de nunca mais fumar, quis ultrapassar o
desafio e após algum tempo tornei-me no tal fumante de um pacote por dia. Pensei que, se o resto do pessoal
do grupo conseguia fumar sem sentir-se mal, eu também iria fazê-lo.
Isto nos leva ao porquê de termos começado fumando e por que continuámos a fazê-lo. O que procurávamos
realmente com aquele primeiro cigarro? Concordamos que não foi pelo prazer da "experiência de fumar"...
Foi, segundo acredito, principalmente por três razões:
1. Para parecermos mais maduros do que realmente éramos.
Pensávamos que, se fumássemos como um adulto, pareceríamos um adulto. Isso era verdade, mas só aos olhos
dos outros adolescentes de nossa idade e os mais novos que nós. Os verdadeiros adultos olhavam para nós
fumando e diziam para eles mesmos: "vejam só, um garoto tão novo e já fumando..."
2. Os fumantes têm uma aparência sexy
Pelo menos foi essa a forma como me foram retratados quando eu era novo: desde John Wayne até Liz Taylor
ou James Dean, todos entravam em cenas em que o cigarro tinha um papel importante em projetar a sexualidade
que o realizador queria. John Wayne chegou até a fazer comerciais a cigarros. Se "O Duque" dizia que eles
eram bons, quem eram os rapazes de treze, quatorze ou quinze anos para dizerem o contrário? Fazer uma pose
com o cigarro em sua mão é sexy, ou pelo menos costumava ser. Hoje em dia, felizmente se nota uma
desmistificação nesse aspecto.
3. Ser aceito por nossos pares
Se todos (ou quase) em seu grupo fumavam, você seria definitivamente o outsider do grupo se não o
fizesse. Era divertido fazer parte de um grupo de jovens, sermos rebeldes em conjunto através do ritual
de respirar fumo vindo do fogo.
Agora, muitos anos depois, serão ainda válidas essas razões que levaram você a fumar? Que parte de "gostar" de
fumar tem ainda a ver com as razões originais que o levaram a fazê-lo?
O que significa agora fumar? Gosta de ser viciado em nicotina e ter um cheiro nauseabundo para aqueles que
não fumam?
É estranho que mesmo que as razões originais para começar fumando tenham há muito tempo deixado de fazer
sentido, elas continuam sendo a força por detrás da continuação de seu vício. São programas ainda
correndo em seu subconsciente para justificar e validar o comportamento ridículo de respirar fumo tóxico
proveniente de ervas venenosas, embrulhadas em papel quimicamente tratado para manter a ponta do cigarro
sempre acesa. Sem essas razões, você não teria qualquer razão para fumar.
Será que nos apercebemos disso a um nível consciente? Claro que não. Quando pensamos um pouco acerca da razão por que
continuamos fumando, dizemos que é porque somos viciados em nicotina e é muito difícil nos libertarmos
desse vício.
Isso é um completo disparate. Como pode haver pessoas viciadas em nicotina sem que ela entre em seus sistemas há
anos? Muitas pessoas fumam de novo após anos sem fazê-lo e muitas vezes mais do que fumavam antes. Uma vez
ouvi a história de um homem que se absteve de fumar durante vinte anos e voltou a um pacote por dia após 3
dias de ter recomeçado. Isso não pode ser devido ao vício da nicotina, pode? Claro que não!
Se nunca estudou o vício de tabaco a fundo, pode parecer estranho o que vou dizer: há pessoas que
dizem que a nicotina é mais viciante do que a heroína. De fato, uma pesquisa feita em pessoas viciadas em
heroína e que eram também fumantes de longa data revelou que a maioria deles afirmou achar ser mais difícil
deixar de fumar do que deixar a heroína. A nicotina tem uma absorção no corpo humano muito mais rápida do que
a heroína, isso é também um fato científico.
No entanto, imagine este cenário: pegue em um certo número de sujeitos que não são viciados em nenhuma droga
e coloque dois adesivos em cada um deles. Um tem nicotina embebida e o outro tem heroína. Ao fim de um mês
lhes diga que têm que deixar de usar um dos adesivos. Aposto que todos irão preferir deixar o autocolante
de nicotina. Porquê? Porque a nicotina não está lhes fazendo nada; ninguém que fume fica "pedrado"
em nicotina, apenas um pouco tonto ao princício ou quando não consome há muito tempo.
Então, afinal o que é tão viciante? Acredito que só pode ser a vontade de satisfazer as necessidades
estabelecidas pelas 3 razões originais que referi antes, que ainda estão correndo dentro de nós.
Ainda queremos parecer maturos, sexy e que fazemos parte do grupo. Estamos empenhados em alcançar
isso através do ato de fumar. O problema é que já não pensamos mais nisso; somente o fazemos, sem questionar nada.
Qual é a solução? Apenas essa: faça esses programas parar em seu subconsciente. Pense novamente nas razões
pelas quais começou fumando. Esses programas têm corrido em sua mente há muito tempo, tendo sido
reforçados pelas centenas de milhares de vezes que você fumou. No entanto, não é necessário reprogramar sua
mente centenas de milhares de vezes para mudar ou apagar esses velhos programas. Quando o corpo se move
no sentido contrário à dor, ele tende para se esforçar mais do que quando se move em direção
à dor. Fumar é doloroso, mesmo se o fumante já não consegue conscientemente sentir essa dor.
Por vezes, mudar nossa crença acerca de algo pode ocorrer num momento, num flash. No entanto,
isso não acontece muitas vezes. O tipo de mudança que consiste em perder a vontade de fumar não requer
atos monumentais mas sim incrementais. Pouco a pouco, pedaço a pedaço, essas razões podem ser
removidas de seu subconsciente. Uma vez que isso esteja feito, não haverá mais razões para fumar, por isso a
vontade de fazê-lo desaparecerá.
A diferença entre apenas parar de fumar e remover as razões pelas quais fuma é a diferença entre ser um
fumador que vive em constante negação e ser verdadeiramente um não-fumador. O primeiro tem crises de vontade
de fumar que são constante, perpétua e subconscientemente negadas. O segundo nunca chega a ter essas crises,
por já não haver razões que as motivem.
Não importa o que as pessoas dizem acerca do quanto gostam de fumar; nunca encontrei nenhuma que não
gostasse ainda mais de não fumar. Pergunte às pessoas que conhece e que deixaram de fumar se não acham
que valeu a pena.
Não podemos mudar o passado mas podemos mudar a forma como nos lembramos dele e como essas memórias
afetam nossas vidas hoje.