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Usando a hipnose para deixar de fumar
Em 1974, no Instituto para a Motivação por Hipnose (uma das maiores
clínicas de seu género na altura e ainda maior hoje em dia), fui certificado pelo Dr. John Kappas como Mestre
Hipnotizador.
Me juntei ao Sindicato dos Hipnotizadores e me tornei membro da
Associação Americana de Hipnotizadores.
Durante a altura em que pratiquei hipnotismo, posso dizer com
orgulho que tive 3 grandes sucessos: primeiro, minha filha caiu em uma banheira com água fervendo e ficou
com queimaduras de 3º grau nos tornozelos.
O médico que a tratou nas urgências disse que ela iria necessitar de
fazer transplante de pele e que os tendões estavam seriamente danificados.
Apenas usando a hipnose, a ajudei a sarar os pés completamente em
7 dias. Nã havia cicatrizes quando as ligaduras foram removidas. O médico que a tinha examinado no dia do acidente
lhe chamou "um milagre".
O segundo foi com uma rapariga que havia ficado paralisada em um
acidente de automóvel. Ela mal conseguia andar, mesmo com a ajuda de suportes metálicos nas pernas e bengalas.
Tinha dois médicos e um terapeuta trabalhando com ela a tempo inteiro há dois anos, sem grandes progressos.
Durante a única sessão que tive com ela (os médicos imediatamente
começaram colocando imensos entraves a nossos encontros, ameaçando com processos legais), descobri que a paralisia
dela era totalmente psicológica.
Não vou detalhar o caso mas era totalmente baseado na culpa. O noivo
dela havia morrido no acidente e ela se sentia responsável.
Através da hipnose, consegui que ela quebrasse a barreira da culpa e
saísse da clínica sem os aparelhos metálicos ou as bengalas. Os médicos nem queriam acreditar (provavelmente
isso significava o fim dos pagamentos que o seguro da moça lhes dava há dois anos).
O terceiro foi um homem que havia feito uma cirurgia ao cérebro, para
evitar que a doença de Parkinson o matasse. Depois da operação, ele apenas conseguia sussurrar. Tenho uma fita
dele gritando durante uma sessão comigo, "Mãe, consegue me ouvir?" Chorámos os dois nessa sessão.
Por isso, acho que sei algumas coisas sobre hipnotismo.
No Instituto em que me formei, me especializei em cessação tabágica.
Apesar de ser bom no que fazia, era estranho não conseguir me hipnotizar (toda a hipnose é, na realidade,
auto-hipnose) para conseguir deixar meu hábito de "um pacote por dia".
A verdade é que muitos dos hipnotizadores que trabalhavam comigo
também fumavam, apesar de tentarem esconder esse fato de seus clientes, tal como eu.
O que é que estava mal?
Durante anos, fiz shows de hipnose. Muitas vezes, os
voluntários pediam para eu fazer coisas depois do espectáculo. A maior parte das vezes era alguém que queria
deixar de fumar. Eu acedi sempre a fazer uma sessão.
Me lembro de um homem que foi a vários espectáculos e que se
oferecia sempre. Era um voluntário excelente e nos divertíamos imenso.
Nessa altura, ele fumava 3 pacotes de cigarros por dia. Sugestionei-o
a não ter mais desejo de fumar e, na semana seguinte, ele me disse-me que não havia fumado desde essa noite. Fiquei
contente.
Voltei a vê-lo talvez 3 ou 4 semanas depois. Ele tinha voltado a
fumar. Lhe perguntei porquê, ao que respondeu que tinha acontecido algo que despoletou nele novamente a vontade de
acender um cigarro
A certo ponto, deixei de fazer esses shows e de praticar o
hipnotismo terapêutico. Consegui aqueles sucessos de que falei antes mas não queria enveredar por esse caminho,
embora gostasse de fazer os espectáculos.
Ainda pensava sobre como conseguir eu próprio deixar de fumar. Havia
tentado cold turkey (expressão americana para quem deixa de fumar sem terapias de substituição, usando apenas
sua força de vontade) 3 vezes e não ia certamnete conseguir dessa maneira. Por isso, me perguntei o seguinte:
Como posso arranjar uma forma de fumar todos os cigarros que quero,
ao mesmo tempo que vou abandonando o vício? Como conseguir deixar algo, fazendo-o ao mesmo tempo sempre que
desejasse?
A resposta foi e é simples: tinha que descobrir como fazer para deixar
de querer fumar.
Primeiro, tinha que descobrir por que a hipnose não resultava, ou
antes, por que resultava mas apenas durante um período limitado?
Descobri isso: fumar é um vício químico e psicológico ao mesmo tempo.
Sempre tinha ouvido (e continuo ouvindo) que o vício de nicotina é mais forte do que o da heroína ou da cocaína
Se isso fosse verdade, não poderiam esses drogados ser hipnotizados
tal como eu havia feito a tantos fumantes e libertados desses vícios?
A resposta é um redondo "não".
Nunca ouvi dizer que alguém se tivesse libertado das drogas através
do hipnotismo. Nem acho sequer que isso seja tentado por alguém com intuitos sérios.
Se a nicotina é mais viciante do que a heroína ou a cocaína, então
deveria ser fácil conseguir, através do hipnotismo, que um drogado ficasse pelo menos umas semanas sem se drogar,
tal como se faz para os fumantes.
Aparentemente, isso não é verdade.
Decidi então encarar o vício de nicotina de outra forma: não achando
que era a droga demoníaca que se dizia. De fato, nem sequer parecia ser ela a força dominadora por detrás do
vício/hábito.
Pensei muito seriamente acerca do que realmente fazíamos quando
hipnotizávamos alguém com o intuito de fazê-lo deixar de fumar. Cheguei à conclusão de que estávamos criando um
novo hábito: o hábito de negar outro hábito. Estávamos construindo uma barreira psicológica entre o fumante e os
cigarros.
Construindo um hábito para negar outro. Dois hábitos em oposição.
Não admira que as pessoas digam que ficam um bocado confusas durante as primeiras semanas após deixarem de fumar.
Depois de deixarem o tabaco, assim que algum acontecimento em suas
vidas seja tão traumático que os faça "abanar" psicologicamente, a barreira cai. Regressam a seu comportamento
anterior, muitas vezes ao mesmo nível de consumo (ou mais) que tinham antes de serem hipnotizados.
Uma mulher me disse recentemente que seu pai havia deixado de
fumar durante 20 anos. Uma noite, em um bar, pegou um cigarro, o acendeu e o fumou. Passado uma semana, estava de
novo fumando tanto como 20 anos antes. Outra pessoa que conheço pessoalmente me diz que também deixou há cerca de
20 anos e todas as manhãs, quando acorda, seu primeiro pensamento ainda é o cigarro.
Essas pessoas nunca deixaram de fumar; elas apenas pararam por
algum tempo (muito tempo, aliás). Mas a nível psicológico, não mais do que aquele sujeito que ficou sem fumar uma
semana depois de ser hipnotizado. Todos eles construíram um hábito de não fumar, um hábito de negar o hábito anterior,
até ao dia em que, por uma razão qualquer, decidem regredir ao hábito anterior, mais velho e enraizado.
Não digo que a hipnose não possa resultar. Acho que tem de ser
aplicada de uma forma muito especial, para poder funcionar. Não pode apenas ser usada para bloquear o hábito; deve ser
usada para destruí-lo completamente, desde a raiz.
A maior parte das pessoas que deixaram de fumar, se pegassem num
cigarro hoje e o fumassem, reverteriam ao seu velho hábito em uma questão de dias.
Tal como o alcoólico não pode tocar mais em álcool, sob pena de
não conseguir mais parar de beber se o fizer. As pessoas que deixam de fumar cold turkey nunca mais podem
pegar num cigarro.
Usando o sistema que criei em mim próprio, que se desenvolveu pelo
meu desejo constante de parar enquanto podia continuar fumando sempre que o quisesse, um dia cheguei àquela meta que
almejava há tanto tempo: já não tinha mais desejo de fumar. Mesmo sabendo que podia acender um cigarro, já não
queria fazê-lo.
Tinha conseguido desenraizar o mecanismo psicológico que havia criado
em mim próprio desde os 14 anos. Nesse momento e já há muitos anos, não sou fumante a qualquer nível.
Se agora fosse forçado a fumar um cigarro, certamente que esse
cigarro não me poria novamente no caminho daquele pacote por dia que eu fumava. Tenho a certeza disso.
A maioria dos hipnotizadores, pela minha experiência, não consegue
compreender o conceito de desenraizar um hábito psicológico. Quase todos eles usam métodos de bloqueio.
Em minha opinião, isso não é apenas um desperdício de tempo e
dinheiro; é algo que descredibiliza completamente a hipnose e provoca grandes danos à mente do fumante, que cada
vez menos acredita que vai conseguir deixar de fumar. |